Campus Party foca nos empreendedores

  • 27 de janeiro de 2014
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SÃO PAULO – Fazer da Campus Party uma grande Disneylândia para o empreendedor brasileiro. Essa é a intenção de Paco Ragageles, fundador da feira de tecnologia, ciência e cultura digital que chega à sua sétima edição em São Paulo a partir de segunda-feira.

Com sede no Anhembi Parque, na zona norte de São Paulo, a Campus Party Brasil quer, até o próximo sábado, se tornar um espaço para ajudar e promover startups nacionais. “O Brasil hoje vive um boom do empreendedorismo. A quantidade de jovens querendo transformar ideias em negócios é cada vez maior na Campus”, diz Marcelo Pimenta, curador de empreendedorismo da feira.

Uma amostra disso é o Startup&Makers Camp, área da feira que será dedicada a empresas iniciantes escolhidas por concurso. Lá, poderão procurar financiamento, vender serviços, trocar conhecimento e mostrar suas ideias aos 8 mil “campuseiros”, que conseguiram vaga para acampar no local. Quem não conseguiu ingresso, poderá acompanhar o evento pelo site Campuse.ro, desenvolvido pela organização para transmitir ao vivo as palestras e encontros da programação.

Entre os palestrantes, os destaques são o vocalista do Iron Maiden, Bruce Dickinson, que vem falar sobre seus negócios no setor de aviação; o criador do serviço de telefonia via internet Viber, Talmon Marco; e Andreas Gal, vice-presidente de dispositivos móveis da Mozilla. Ao todo, serão mais de 500 horas de atividades, distribuídas em 13 palcos.

Paco Ragageles explica que a programação está focada mais em qualidade do que em quantidade. “Prefiro gastar o orçamento da feira em 500 horas de alto nível do que com quatro ou cinco grandes estrelas que falarão por apenas alguns momentos”, explica.

Criada na Espanha, em 1997, a Campus Party consolidou em seus primeiros anos a imagem de um evento voltado para nerds e fãs de tecnologia. Com o tempo, defende seu criador, isso mudou. “Todos somos geeks, mas geek não é mais aquele cara antissocial que ficava na frente do computador. Hoje é quem tem um blog, quem usa redes sociais, quem é designer. A Campus Party não mudou, foram os geeks que mudaram”, diz Ragageles, para quem os dias de hoje reservam grandes possibilidades a quem tem boas ideias relacionadas ao mundo digital.

“Hoje, com a internet, um garoto de 15 anos pode ter mais conhecimento do que professores de universidade, e com pouco gasto pode montar um negócio mundial. Isso muda os negócios da maneira como conhecemos hoje”, avalia o espanhol, que vê no País um grande potencial. “O Brasil tem um pré-sal no talento dos brasileiros.” A seguir, os principais trechos da entrevista com o idealizador do evento.

As últimas edições da Campus Party já traziam bastante conteúdo relacionado a empreendedorismo, mas parece que agora esse é o foco da vez. Por quê?
Começamos o apoio a desenvolvedores e startups há cinco anos, com um projeto que permitia aos campuseiros lançarem seus projetos. O que acontece em 2014 é a máxima expressão desse projeto, com mecanismos que apoiam fortemente as novas ideias. Nosso objetivo é que mais de 200 empresas brasileiras, com alta possibilidade de se transformarem em grandes companhias, obtenham na feira chances de financiamento, de melhorar seus talentos e fazer contatos com desenvolvedores e designers. Além disso, o conteúdo do palco de empreendedorismo está voltado para quem teve uma ideia, mas ainda não sabe como dar os primeiros passos. Acredito que será um grande empurrão.

É uma evolução? Primeiro, a Campus atendia aos nerds e agora se dedica a empreendedores. Isso ocorreu em outros países?
É um processo natural na Campus Party, que acontece de forma parecida ao redor do mundo. Os idiomas podem ser diferentes, mas a tecnologia não fala inglês, português ou alemão. Ela fala em Java, HTML ou Photoshop. Não é difícil.

Isso significa que o campuseiro brasileiro é igual a outros campuseiros ao redor do mundo?
Não. A Campus Party brasileira tem conteúdo semelhante à de outros países, mas os ambientes são totalmente diferentes. Os brasileiros são muito calorosos.

No meio digital, você considera o brasileiro inovador?
Os brasileiros são criativos e extrovertidos, o que, cruzado com a cultura da internet, traz um resultado fenomenal. Digo sempre que o próximo Facebook, Twitter ou Google será brasileiro. É um processo que leva tempo. Quantos brasileiros estão no Vale do Silício e não aqui? É preciso tentar manter os talentos no Brasil. O País tem um pré-sal não explorado no talento dos brasileiros.

Empreender no digital é o atual grande negócio na economia?
Estamos vendo uma grande transformação. Até a aparição da internet, quem queria empreender precisava ir até a universidade e, depois disso, ter muito capital para montar um negócio. Hoje, com a internet, um garoto de 15 anos pode ter mais conhecimento que professores de universidade, e gastando muito pouco, pode montar um grande negócio. Isso muda muita coisa. Nossa tarefa é atender aos interesses desses garotos.

Como é a relação da Campus Party com a Prefeitura?
A Campus Party é um evento extremamente caro e complexo de se organizar. Ocupamos todo o Anhembi, cujo aluguel para o período da feira é de R$ 5 milhões. Com o dinheiro que arrecadamos pela venda das vagas aos campuseiros, não conseguiríamos pagar por esse espaço. O apoio da Prefeitura é fundamental porque ela entra com o Anhembi, o que corresponde a 40% do gasto que a Campus Party tem.

Como foi o processo para definir a programação?
Buscamos atender aos diversos interesses que existem na feira e, além disso, focamos na qualidade. Preferimos ter 500 horas boas de conteúdo do que apenas 4 ou 5 grandes estrelas para darem palestras por alguns momentos. Isso é o que os campuseiros querem – a confiança deles fez a gente esgotar as 8 mil vagas sem nem ter anunciado toda a programação. É óbvio que eu gostaria de ter mais palestrantes importantes, mas, pelo orçamento, prefiro a qualidade.

Qual é o papel da Campus Party daqui para a frente?
Precisamos estar sempre pesquisando qual é a cultura da internet e o que os nossos campuseiros querem. Antigamente, o maior destaque da feira era a banda larga de alta velocidade. Agora, é o conhecimento e o investimento. Temos de seguir avançando. Não sei como seremos daqui a cinco anos, mas estaremos melhores do que estamos hoje.

E a reação do Brasil quanto aos escândalos de espionagem?
O Brasil é o único país forte do mundo que está honestamente se posicionando sobre o que aconteceu – não dá para acreditar no que os russos dizem, por exemplo. O discurso da presidente Dilma na ONU foi maravilhoso. Espero que vocês consigam transformar as coisas, porque eu não vejo nenhum país com força suficiente para melhorar isso.

 

Fonte: Estadão

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